Goa no cinema: de Antunes Amor aos jovens realizadores goeses



Maria do Carmo Piçarra
bolseira do programa anual de bolsas de estudo 



No segundo trimestre da investigação que faço como bolseira da Fundação Oriente, sobre “representações da Ásia portuguesa" nos arquivos fílmicos, tive a oportunidade de viajar para Goa onde, em Pangim, fiquei instalada nas Fontaínhas, na maravilhosa delegação que a Fundação Oriente aqui manm. Digo maravilhosa porque além do edifício, muito bonito, a delegação tem alma e coração. Não podia ter sido mais bem recebida pela diretora da delegação, a Dra. Inês Figueira, e por toda a equipa, de uma enorme dedicação e simpatia. 



Maria do Carmo Piçarra em Goa © José da Costa Ramos

Nas Fontaínhas é possível tomar o pulso à pequena cidade de Pangim mantendo, porém, um certo resguardo da intensidade dos sons e movimento da cidade [as buzinas; as motas, que surgem de todos os lados, as estradas com tantos sentidos...]. São as escolas, em redor; mas também os turistas; é o hotel Panjin Inn, com a varanda aberta para a rua mas também o familiar [bom e barato] restaurante Viva Panjim; são os muitos vizinhos de mais idade que nos param na rua porque estamos a falar português e querem conversar connosco. Poderia escrever tanto sobre as experiências humanas, muito bonitas, que vivi em Goa. Adiante, porém.


Maria do Carmo Piçarra em Pangim © José da Costa Ramos

Da janela da sala do apartamento em que ficámos instalados – tive a sorte de poder viajar com o José Carlos, o meu marido, que tem dado apoio à pesquisa documentando vários aspetos da mesma através da fotografia – vê-se uma pequena campa com uma pedra tumular. É dedicada ao Pluto, o cão de um inesquecível diretor que a delegação já teve, o Paulo Varela Gomes. Na biblioteca da delegação está, novinho em folha, “Era uma vez em Goa”, livro do Paulo. Foi, noutro registo, mais íntimo e caloroso, o meu livro de cabeceira, ao lado de “Xeque-mate a Goa”, da Maria Manuel Stocker, isso depois da leitura do muito interessante livro do Alfredo Bruto da Costa sobre a terceira via que apontava para Goa.

Sobre a minha pesquisa

Só vários anos depois de ter começado a investigar como o Estado Novo usou o cinema para propagandear o designado “modo português de estar no mundo” tive a perceção que, se este estudo estava a ser feito quanto às ex-colónias africanas, tal não se passa, em geral, quanto ao outrora designado “Oriente português”.
Foi essa consciência que ditou a minha candidatura a um apoio da Fundação Oriente. Este estudo integra-se, pois, numa investigação mais ampla sobre como Portugal “imaginou” a política em situação colonial (e na transição de administração em Macau) através do cinema, sobre como esta forma de expressão artística traduziu reconfigurações ideológicas, determinadas por acontecimentos históricos. Complementarmente, proponho-me analisar como as representações coloniais foram questionadas, ou não, através de obras, tanto de autor como no âmbito de um cinema amador e/ou através dos filmes de família, reveladoras de olhares disruptivos.
A pesquisa iniciou-se com leituras – sou formada em Ciências da Comunicação e não conhecia em profundidade a história da presença portuguesa na Ásia – e com o visionamento de filmes no Arquivo Nacional de Imagens em Movimento, que, alojado fora de Lisboa, é uma dependência da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema. De modo simplista, é o local onde são preservados e restaurados (em função dos recursos financeiros e técnicos disponíveis) os filmes que compõem a coleção da Cinemateca. Não são todos portugueses, naturalmente. Mas, entre os portugueses, uma percentagem significativa é relativa a documentários e atualidades cinematográficas, muitos dos quais realizados com o apoio do Estado Novo e relativos às ex-colónias. Além da Cinemateca, também o Exército tem uma coleção fílmica importante, a do Centro de Audiovisuais do Exército, que venho consultando desde há anos. Para complementar visionamentos, há sempre que considerar a coleção da RTP – parcialmente disponível em linha – e, quanto a produções estrangeiras, arquivos como os da Gaumont Pathé, do
Institut national de l'audiovisuel, em França; da British Pathé, ingleses, e dos espanhóis No-Do, disponíveis em linha. Consultar os materiais estrangeiros permite-me sempre perceber como se procedeu a migração de imagens (ou seja, como é que as imagens circularam; como foram adquiridas, cedidas e que narrações lhes foram adicionadas) e as diferenças de representações subjacentes.

Sobre o trabalho de campo aqui em Goa

A delegação da fundação fica a escassos metros do arquivo de Goa onde procurei, sem sucesso, documentação relativa ao período da administração portuguesa e sobre a passagem de realizadores portugueses pelo território. Um pouco mais distante, na outra margem de um pequeno afluente do Mandovi, fica a Biblioteca Central de Pangim. Foi aí que passei mais tempo, no 4º andar, relativo aos documentos raros. A Dra. Maria de Lourdes Bravo da Costa, que já foi responsável por este serviço e se está agora reformada mas é utente regular dos serviços, fez, com generosidade, várias sugestões de consulta de publicações além de ter feito a ponte entre mim e os funcionários da biblioteca, sempre disponíveis para ajudar. A língua, porém, nem sempre facilita comunicação. Se alguns deles mantém nomes (apelidos, sobretudo) portugueses, já ninguém aqui fala a língua. O inglês nem sempre é fluído, mas vamos sempre superando as dificuldades de expressão. De resto, através da consulta do vespertino O Diário da Noite e do matutino O Heraldo, fundado em 1900, pude acompanhar momentos importantes da vida de Goa (as visitas de Sarmento Rodrigues, Orlando Ribeiro e Gilberto Freyre ou a chegada de Vassalo da Silva, além das comemorações em torno de S. Francisco Xavier, em 1952) que foram, nalguns dos casos, documentados em filmes. O Heraldo era o jornal escolhido pelos cinemas então existentes no território para publicitarem as sessões. Através dos anúncios pude constatar que era sobretudo o cinema de Hollywood e indiano, aquele mostrado. Em termos de filmes portugueses, apenas dei conta da exibição de Camões e, a partir de final da década de 1950, das atualidades cinematográficas de propaganda (produzidas pelo Secretariado Nacional da Informação) Imagens de Portugal, já no início da sua segunda série (tive oportunidade de estudar esta coleção em profundidade durante o meu doutoramento, cuja tese está publicada com o título Azuis Ultramarinos). Uma consulta que se revelou fundamental foi ao Boletim Oficial do Estado da Índia (infelizmente só estão disponíveis edições relativas a 4 anos da década de 50), onde, finalmente, pude encontrar duas reportagens relativas às duas passagens por Goa do realizador Ricardo Malheiros.
No contexto da minha pesquisa importa-me consultar filmes amadores e de família feitos por goeses antes da libertação. Para tentar encontrar algum espólio pedi ajuda à investigadora Savia Viegas bem como a alguns investigadores e artistas goeses que tive oportunidade de conhecer. Este é um trabalho que terei de prosseguir à distância, quanto à identificação de materiais em Goa, enquanto continuarei a pesquisa em Portugal onde já identifiquei a existência de dois filmes.
Este meu interesse por este género de filmes visa a contraposição das representações daqueles que tiveram acesso a câmaras de filmar – estando eu ciente de que o custo das mesmas não permitia o seu acesso por parte de toda a população – àquelas que foram propostas pelos filmes patrocinados pelo Secretariado Nacional da Informação e/ou da Agência Geral do Ultramar portugueses. Também me interessa perceber como é que hoje questões relativas à identidade e culturas goesas – complexas – são representadas no cinema contemporâneo, assinado por realizadores goeses. Foi nesse âmbito que, com o apoio de Nalini de Sousa, identifiquei e visionei vários filmes, documentais e de ficção. Na sequência desta pesquisa e ainda durante a minha estadia em Goa, propus à diretora da delegação da Fundação em Goa a realização de uma apresentação de filmes intitulada “Goan Communities and Cultures in Documentary Films”. A sessão, a qual decorreu a 26 de Fevereiro, foi um êxito em termos de público – mais de 120 pessoas estiveram presentes, tendo-se esgotado a capacidade da sala, e participaram no debate final - contou com a participação do antropólogo Pedro Sobral Pombo e do realizador Vince Costa além da diretora da delegação, Inês Figueira, e de mim, que apresentei brevemente a minha pesquisa e moderei a conversa final. Incluiu a exibição de Caazu (2015), de Ronak Kamat; Dances of Goa (2012), de Nalini Elvino de Sousa; Shifting Sands (2013), de Sonia Filinto; além de Saxtticho Koddo - The Granary of Salcete (2018), de Vince Costa. Esta sessão repetirá em Lisboa, no âmbito de um ciclo de filmes sobre Goa que estou a organizar e que acontecerá, no Verão, no Museu do Oriente.


Fotos da apresentação de Goan Communities and Cultures in Documentary Films, no dia 26 de fevereiro© José da Costa Ramos



De algumas descobertas mas sobretudo de muitas conversas, aprendizagem e extraordinários encontros se fez esta passagem por Goa. Além da pesquisa feita e enfocada no tema que já apresentei, surgiu a oportunidade de, em articulação com a antropóloga Rosa Perez – com a qual coincidimos ainda no início da estadia –, nos envolvermos no registo fotográfico relativo à documentação e ao espaço onde funcionou um estúdio fotográfico nos anos 50 e 60, cujo espólio a Fundação Oriente adquiriu alguns anos. O seu proprietário, já falecido, era irmão do extraordinário pintor goês Vamona Navelcar (1930) que tivemos o privilégio de conhecer e que o José Carlos fotografou.

Com o jovem realizador goês Ronak Kamat, autor de um documentário sobre Vamona Navelcar [que vou programar para apresentação no museu do Oriente dentro de alguns meses], o pintor Vamona Navelcar e com José Da Costa Ramos.
© José da Costa Ramos


Além do contacto com esta enorme figura - a de Vamona Navelcar -, um dos encontros mais interessantes foi com uma figura quase desconhecida e que, espero, a minha investigação permitirá conhecer melhor. Trata-se da figura de Manuel Antunes Amor, representado na coleção de pinturas de António Xavier Trindade que está exposta em permanência na Delegação da Fundação Oriente em Pangim. Amor, pintado num quadro intitulado “Sr. Amor, the Portuguese Agent”, e que era quase desconhecido, foi primeiro Inspetor da Instrução Primária (a partir de 1916) e um cineasta amador que escreveu obra sobre o uso de filmes documentais para fins pedagógicos. Um homem à frente do seu tempo, esteve em Macau também entre 1919 e 1922, onde comprou uma câmara amadora com a qual filmou Macau e Goa. Dos seus filmes apenas se conhece o paradeiro de um, datado de 1923, relativo a Macau. Não obstante conhecer vários títulos de obras que filmou em Goa, continuo sem saber o que sucedeu aos filmes que realizou e que o governo do Estado Novo usou mais tarde, no início da década de 30, para, nas grandes exposições internacionais, mostrar as colónias portuguesas. Amor morreu jovem. Quando, no início dos anos 30, apresentou os seus filmes em Lisboa deu uma entrevista em que referiu os seus problemas de saúde que esperava resolver antes de voltar a Goa. Tal não veio a suceder e importa agora tentar dar a conhecer um pouco do seu pensamento, pioneiro, sobre o uso do cinema – durante a I República Portuguesa – assim como contribuir para tentar recuperar algum dos seus registos filmados de Goa que possa ter sobrevivido.


fotografia do Sr. Amor © família Amor

Pintura do Sr. Amor da autoria de A. Xavier Trindade, no catálogo da Fundação Oriente dedicado à obra de A. Xavier Trindade

O trabalho de campo realizado em Pangim, Velha Goa e Margão foi fundamental pelo conhecimento que me permitiu ganhar do lugar, das suas culturas e questões identitárias atuais. Em termos humanos esta foi uma experiência inesquecível. Em termos de conhecimento, já comecei a organizar as informações recolhidas e espero muito em breve começar a partilha com um artigo sobre o Sr. Amor. Antecipando um pouco da sua história, a RTP Internacional exibirá a 20 de Março uma pequena entrevista que me foi feita por Nalini de Sousa e que será exibida no programa “A hora dos portugueses”.




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