Testemunho de ex-bolseiro 
Rui Oliveira Lopes




No passado dia 23 de Novembro o Museu do Oriente organizou um encontro com bolseiros e ex-bolseiros para comemorar os 30 anos da Fundação Oriente e os 10 anos do Museu do Oriente. Um dos momentos altos deste evento foram os testemunhos apresentados pelos nossos ex-bolseiros. Um deles  foi o texto enviado por Rui Oliveira Lopes. 
Rui Oliveira lopes vive no Brunei Darussalam, onde exerce o cargo de professor assistente na Faculty of Arts and Social Sciences da Universiti Brunei Darussalam. Foi bolseiro de Doutoramento entre 2007 e 2010


 
Bandar Seri Begawan, 15 Novembro 2018

Nos meus tempos de estudante universitário, quando me encontrava no primeiro ano do curso de história na Universidade Autónoma de Lisboa, li no “Diário de Notícias que a Fundação Oriente se preparava para abrir o Museu do Oriente. Até esse dia, nunca tinha imaginado a possibilidade de ter um emprego relacionado com o estudo da história ou da história da arte. Inscrevi-me no curso de história porque não passei nos exames físico para ingressar o curso de pilotos da Força Aérea e porque tive uma inspiradora professora de história no último ano de liceu. Inebriado pela ideia de trabalhar num museu, de estudar mais a fundo a presença portuguesa no mundo, e de explorar as fascinantes civilizações asiáticas, enviei uma ingénua – e certamente ridícula – candidatura espontânea para trabalhar no Museu do Oriente.
Desde então, desenvolvi um interesse profundo pela história da expansão portuguesa, pela forma como o conhecimento dos “Novos Mundos” modelou o Renascimento e definiu, em muitos aspetos, a cultura visual europeia. Depois da licenciatura em história pela Universidade Autónoma, inscrevi-me no Mestrado em Teorias da Arte na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, onde, em 2006, iniciei o meu projeto de Doutoramento em Ciências da Arte com o objetivo de estudar a confluência da arte crista na Índia, na China e no Japão entre os séculos XVI e XVIII.
Uma vez que me encontrava a trabalhar, estava impedido pelo regime de exclusividade de me candidatar a uma bolsa de doutoramento pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. Decidi então candidatar-me a uma bolsa de doutoramento pela Fundação Oriente que me foi concedida em 2007. Foi também mais ou menos por essa altura que, a convite do Professor Fernando António Baptista Pereira, na altura responsável pelo projeto museográfico do Museu do Oriente, colaborei pela primeira vez com a Fundação Oriente contribuindo com investigação e textos para o catálogo da exposição permanente “Presença Portuguesa na Ásia”.
A condição de bolseiro da Fundação Oriente abriu para mim um mundo semelhante aquele de alem-mar, levando-me a lugares que nunca imaginei e a cruzar-me com pessoas e histórias que guardarei sempre na memoria. Em Abril de 2008, visitei o Ricci Institute na Universidade de São Francisco, tendo o privilégio de explorar a magnifica biblioteca rica em documentação sobre os Jesuítas na Ásia e de partilhar do meio académico junto Xiaoxin Wu, Melissa Dale e Lauren Arnold.
Em Janeiro de 2009, durante uma visita a Índia e uma curta estadia na Delegação de Goa em Pangim, tive uma serie de encontros e histórias memoráveis. Fui encantadoramente recebido pelo saudoso Professor Paulo Varela Gomes. Na varanda da casa, na mesa do Ernesto ou na esplanada do Pangin Inn, conversamos pela noite dentro sobre arquitetura de Goa, a conservação e gestão do património ou a falta de estratégia para a investigação, quer na Índia quer em Portugal. Uma tarde, enquanto usava o computador na sala da delegação de Goa, levantei os olhos por momentos, e dei de caras com o Professor Luis Filipe Thomaz, que entrava de rompante com um capacete debaixo do braço, cumprimentando-me.Oportunamente, apresentei-me e conversamos um pouco sobre a investigação que me levou a Goa ainda incrédulo com a minha fortuna.
Ainda em Goa, num outro dia, enquanto descia as escadas do primeiro andar da casa, esbarrei com o Tiago Oliveira, amigo de bairro e cofundador da banda Polo Norte, que estava em Goa com o Mestre António Chainho a gravar o disco LisGoa. Jantamos todos nessa noite no Ernesto, com o Mestre Chainho partilhando histórias e convivências em Macau.
No último ano de bolseiro da Fundação Oriente, passei umas semanas em Macau, Guangzhou, Hong Kong e Taipe com o propósito de estudar o património artístico no contexto das missões cristãs na China. Naturalmente, fiquei hospedado na Casa Garden, onde tive o privilégio de conhecer Rui Rocha, na altura responsável pela Delegação de Macau. Durante a minha visita a Macau tive também a oportunidade de conhecer Francisco Chan e Roy Sit, profissionais do Museu de Macau e do Instituto Cultural de Macau, que incansavelmente me levaram pelas coleções de arte cristã em Macau e estabeleceram uma ponte de contacto com o Museu do Palácio Imperial onde fui, nessa altura, analisar as pinturas dos pintores jesuítas ao serviço de dos imperadores Kangxi, Yongzheng e Qianlong.
A ida à China expandiu extraordinariamente os meus horizontes, não apenas no sentido de uma cultural visual mais consolidada, mas também no entendimento de que a presença portuguesa / europeia na Ásia apenas se poderá entender num contexto global, de interligação geográfica e civilizacional. Permitiu-me visualizar a perspetiva do Camilo Pessanha sobre a cultura literária e artística da China e partilhar esse entendimento através de uma conferência de fiz mais tarde no Museu do Oriente, numa espécie de tributo a José Diogo Seco Ribeiro, pioneiro no estudo das colecções Camilo Pessanha e Manuel Teixeira Gomes.
Depois de concluir o meu doutoramento, em 2012 voltei a colaborar com a Fundação Oriente, desta vez como bolseiro de pós-doutoramento pela FCT, num projeto de investigação sobre arte e religião das civilizações asiáticas, focando no estudo da coleção Kwok On. Ao longo dos três anos do projeto de pós-doutoramento tive a oportunidade de conhecer ainda melhor o Museu e a Fundação Oriente e conviver de perto com pessoas como o Engª João Calvão, a Dra. Manuela d’Oliveira Martins, o Dr. João Amorim, a Joana Belard da Fonseca, a Sofia Campos Lopes, a Isabel Saraiva, a Isabel Carvalho, o Francisco Peixoto.
Durante essa altura, colaborei com o Museu do Oriente em vários projetos, entre os quais a exposição de cartazes de propaganda Chinesa (2013), o Workshop de Estudos de Objectos da China (2013), o estudo de pigmentos das marionetas de sombras de Karnataka (2012), o estudo da coleção das pinturas de Mithila (2012).
Em 2014, no âmbito do projeto de pós-doutoramento, passei uma temporada de seis meses como “visiting scholar” na Universidade de Fudan, em Shanghai onde organizei um symposium de dois dias sobre as interações entre a arte e a religião na Ásia, resultando na publicação de um número especial duplo na revista Art and Religion, publicada pela Brill em colaboração com o Boston College.
Vários anos se passaram e muitas experiências se viveram entre o dia em que enviei uma candidatura espontânea para trabalhar no Museu do Oriente, o dia em que me tornei bolseiro da Fundação Oriente, e o dia em que passei a viver e trabalhar no Brunei Darussalam. Longe de imaginar que teria o privilégio de colaborar como consultor com o Museu do Palácio Imperial em Taipe, com o International Research Centre for Intangible Cultural Heritage in the Asia-Pacific Region sob os auspícios da UNESCO, e de colaborar com a celebre Orientations Magazine.
Desde 2015, sou Professor Assistente na Faculdade de Artes e Ciências Sociais, Universidade do Brunei Darussalam, onde sou coordenador do programa de Design e Indústrias Criativas e ensino: história da arte e do design, indústrias criativas, curadoria e gestão do património, projetos criativos, temas das artes visuais, e artes do sudeste asiático. No Brunei, tenho tido o privilégio de conhecer de perto as diversas culturas indígenas do Bornéu e aprofundar a relevante história mercantil da região antes, durante e depois da conquista de Malaca em 1511 e a circum-navegarão da frota de Fernão Magalhães que atracou no Brunei em 1521. Viver num Sultanato Islâmico no século XXI, experienciar a cultura e as tradições malaias, colaborar com artistas e museus locais me fez entender verdadeiramente a relevância da “viagem” para a cultura e a identidade portuguesas.
Do mesmo modo que não foram as naus, mas sim, o sentido da viagem que levou os portugueses a todas as partes do mundo, não foi a bolsa da Fundação Oriente, mas sim, a missão da própria fundação na promoção das culturas asiáticas que me despertou o interesse pelo estudo das artes da Ásia.
Por isso, e enrodilhado no “labirinto da saudade” que lamento não estar fisicamente presente neste evento partilhando e celebrando os 30 anos da Fundação Oriente e os 10 anos do Museu do Oriente. Como se diz por aqui no Brunei, “Inshallah”, fá-lo-ei quando regressar a Lisboa de férias.
Obrigado.
Rui Oliveira Lopes

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